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Lauter: “Se tivesse mais alma para dar, eu daria”

Que Lauter Nogueira é um tufão que espalha talento e garra por onde passa ninguém duvida. Mas é impossível não se emocionar com a mensagem que este grande profissional (seja nas telas da Rede Globo ou na preparação dos seus atletas) deixa após uma entrevista repleta de petardos, posicionamentos e apostas.

 

Lauter Nogueira não fala em off e não tem medo nenhum de arriscar e provocar. Duvido alguém ficar imune às linhas que se seguem, que fizemos questão de transcrevê-las na íntegra. Bom apetite.

 

O que mais contribui para o sucesso de um triatleta: determinação ou talento?

 

DETERMINAÇÅO!!! Mas não devemos esquecer que é necessário ter um talento especial para se tornar um triatleta vencedor: talento pra ser muuuuuito determinado. Temos no mundo vários exemplos de atletas notoriamente com pouco talento, mas com altíssimo grau de determinação.

 

Jan Frodeno e Emma Snowsill (campeões olímpicos em Pequim) são os grandes exemplos do momento. No Brasil, o grande exemplo é Leandro Macedo, não tão talentoso como outros de sua geração, mas com uma carreira nacional e internacional brilhantes.

 

Até que ponto o trabalho em equipe é fundamental em uma prova nos tempos atuais?


Hoje o trabalho em equipe se torna simplesmente imprescindível se um país quiser ter chances de disputar medalhas olímpicas. O triathlon, no formato atual, requer não só atletas com excelente corrida, mas um grupo que mescle bons nadadores e ciclistas.

 

Na etapa de ciclismo, devemos ter, pelo menos, um atleta com ciclismo realmente forte, com um perfil de “gregário” ou “passista”, com um contra-relógio corajoso e bem treinado.

 

Esse atleta tem função de sacrificar-se durante a etapa de ciclismo. Deverá levar e manter o (ou os) bons corredores ao final da etapa de ciclismo em condições de estarem entre, ou próximos dos líderes da prova.

 

Como lidar com o  atleta com pouco poder de superação?


Ensiná-lo, por meio de treinos e exercícios mentais, a vencer esta deficiência. Normalmente com o próprio treinamento, os atletas vão perdendo um pouco este excesso de auto-preservação.

 

O trabalho do técnico exige quanto por cento de inspiração e quanto por cento de transpiração?

 

Quem transpira é o atleta, e como !!!! Se entendermos como “inspiração” a capacidade de valer-se de todos os mais importantes preceitos do moderno treinamento desportivo para criar um método de treinamento vencedor, eu diria que a relação seria de: 80% inspiração e 20% transpiração. A transpiração fica por conta da necessidade de ter sob controle todas as valências físicas de seus atletas, para evitar o sobre-treinamento e o sub-treinamento.

 

Quantos atletas você treina atualmente e quais são os que mais se destacam?


Hoje treinamos 160 atletas das mais variadas modalidades. Temos um grupo grande e forte de atletas com perfil de nível internacional no atletismo e no triathlon. Como estamos conversando sobre triathlon, deixemos os outros esportes de lado e foquemos no “grupinho” que aceitei treinar nesta temporada.

 

Quando falo “aceitei”, é apenas pelo fato de que as últimas gerações de triatletas profissionais, talvez pelo fato de terem seus “egos” mais desenvolvidos do que seus próprios talentos, me davam tédio!!! Julgavam-se serem muito mais do que realmente eram (esportivamente, claro) e tinham uma postura incompatível com o esporte, pois se julgavam maiores do que o próprio esporte.

 

Bem, no meio, quase no final da temporada passada, um grupinho de mineiros veio me procurar, pedindo que os treinasse à distância. Detectei, depois dos testes, um perfil bem interessante desses atletas. Topei e começamos a parceria com o Diogo Sclebin, Luiz Francisco, Adriano Sachetto e o Thiago Vinhal.

 

Em abril deste ano, logo depois da primeira etapa do Campeonato Brasileiro, Fernanda e Paula Bau vieram me pedir para que as treinasse. Aceitei confiando na determinação destas meninas. Seguimos nossos objetivos principais: tornarem-se atletas internacionais ranqueados (entre os 70 na ITU) e formarmos um grupo forte com competência para brigar por medalhas olímpicas.

 

Em Londres já teremos pelo menos dois representantes desse “grupinho” competindo e até lutando pelo pódio Olímpico. Vocês sabem qual o combustível que usamos para seguir em frente com esses atletas: DETERMINAÇÅO E COMPETÊNCIA. Vamos seguindo em frente, sem apoios oficiais e sem tapinhas nas costas.

 

Formamos um pequeno exército, que surgiu por acaso e sem muito crédito. Aos poucos eles vão começando a sentir até onde podem chegar, e com muito orgulho. Neste pequeno exército não tem lugar para arroubos de narcisismo e egocentrismo. Esse será o perfil do novo triatleta profissional brasileiro.

 

Algum atleta pode se tornar uma grande revelação nas próximas temporadas?


Sim, exatamente todos os nomes citados acima, inclusive o do Thiago Vinhal, que vem atravessando um ano difícil em função de lesões e ano de formatura (gradua-se em Educação Física).

 

Com as suas atividades na Rede Globo e mais as outras atividades, que você desempenha brilhantemente por sinal, dá tempo para descansar?

 

Vivo com, para e do esporte há 25 anos. Se não gostasse do que faço, necessitaria de férias constantemente e começaria uma contagem regressiva para a aposentadoria, mas a minha paixão pelo que faço me nutre. A minha atividade com a televisão e como cronista esportivo é tida por mim como lazer, apesar de tentar exercê-la com toda a competência possível. O meu trabalho com o esporte é o que me toma o tempo e a alma. E, como diria Djavan, sabiamente por sinal: “ ... se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, pois isso pra mim é que é viver...” 
 




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